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Os Três Mosqueteiros Paris, 1625 · Dumas, 1844

Romance e história

Verdadeou invenção?

Dumas dizia que a história era um prego onde ele pendurava seus romances. Conferimos o prego: o que nos Três Mosqueteiros aconteceu de verdade, o que foi exagerado e o que saiu inteiro da cabeça do autor.

Alexandre Dumas escreve à luz de um lampião enquanto, no escuro atrás dele, surgem cavaleiros e espadachins.
Dumas escrevendo Os Três Mosqueteiros, imaginado por Maurice Leloir.
Fotografia de Alexandre Dumas por Nadar.
Alexandre Dumas, por Nadar.

As fontes de Dumas

Dumas trabalhava com três tipos de material. O primeiro eram as Memórias do senhor d’Artagnan (1700), de Gatien de Courtilz de Sandras: memórias falsas, escritas trinta anos depois da morte do verdadeiro d’Artagnan, que já misturavam fatos e aventuras inventadas. Delas vêm os nomes de Athos, Porthos e Aramis, de Milady e da criada Kitty.

O segundo eram as memórias de nobres do século XVII, como as do duque de La Rochefoucauld, de onde saiu o caso dos agulhetes. O terceiro era o trabalho de Auguste Maquet, historiador e colaborador, que pesquisava, montava a cronologia e escrevia os primeiros rascunhos.

O resultado é um romance em que os acontecimentos públicos (o cerco de La Rochelle, o assassinato de Buckingham, a proibição dos duelos) são quase sempre verdadeiros, e as causas secretas por trás deles quase sempre são invenção.

Quinze pontos conferidos

Verdade: aconteceuEm parte: tem base real, mas foi mudadoInvenção: criação de Dumas

  1. Em parte

    Os quatro mosqueteiros existiram

    Os quatro nomes são de homens reais, todos do sudoeste da França e ligados ao senhor de Tréville: Charles de Batz de Castelmore (d’Artagnan), Armand de Sillègue d’Athos, Isaac de Portau e Henri d’Aramitz. Mas personalidades, aventuras e amizade entre eles são invenção. Não há prova de que tenham agido juntos.

  2. Invenção

    D’Artagnan chegou a Paris em 1625

    O d’Artagnan real nasceu por volta de 1611. Em 1625 era um menino na Gasconha. Só chegou a Paris nos anos 1630 e entrou nos mosqueteiros por volta de 1644. Dumas adiantou a sua vida em quase vinte anos para colocá-lo no tempo de Richelieu e Buckingham.

  3. Verdade

    O senhor de Tréville

    Jean-Armand du Peyrer, conde de Tréville, era um gascão de origem modesta que subiu pela espada até comandar os Mosqueteiros do Rei, a partir de 1634. Protegia os conterrâneos e era um favorito de Luís XIII, como no romance.

  4. Em parte

    Os agulhetes da Rainha

    A história vem das memórias de La Rochefoucauld: a condessa de Carlisle teria cortado de Buckingham dois pingentes de diamante, presente da Rainha da França, e o duque teria mandado fazer cópias e fechado os portos. Os historiadores duvidam; La Rochefoucauld escreveu décadas depois. A viagem de d’Artagnan a Londres é invenção.

  5. Em parte

    Buckingham amava a Rainha

    Em 1625, Buckingham veio a Paris buscar a noiva de Carlos I e cortejou Ana d’Áustria de forma escandalosa: num jardim em Amiens, a Rainha chegou a gritar por socorro. O duque foi proibido de voltar à França. Se ela correspondia, ninguém sabe.

  6. Invenção

    Milady de Winter

    Milady é criação de Dumas, com um ponto de partida real: a condessa de Carlisle, dos agulhetes. O casamento com Athos, a flor-de-lis, o veneno e o julgamento à beira do Lys são todos de Dumas.

    Ler sobre Milady

  7. Verdade

    Buckingham foi apunhalado por Felton

    Em 23 de agosto de 1628, em Portsmouth, o oficial John Felton matou o duque com uma faca. Felton tinha mágoas pessoais e políticas, agiu sozinho e foi enforcado. A parte de Milady seduzindo Felton na prisão é invenção.

  8. Verdade

    O cerco de La Rochelle

    De setembro de 1627 a outubro de 1628, o exército real cercou a cidade protestante. Richelieu mandou construir um dique de mais de um quilômetro para impedir que a frota inglesa a abastecesse. A cidade se rendeu depois de catorze meses, com a população dizimada pela fome.

  9. Invenção

    O almoço no bastião Saint-Gervais

    Não há nenhum registro da aposta dos quatro nem do almoço sob fogo. A cena é puro Dumas, e uma das mais queridas do livro.

  10. Verdade

    Os duelos eram proibidos

    Um édito de 1626 tornou o duelo crime punido com a morte. Em junho de 1627, o conde de Montmorency-Bouteville, que havia duelado mais de vinte vezes, foi decapitado em Paris por desafiar a proibição na Place Royale.

  11. Verdade

    Mosqueteiros contra guardas do Cardeal

    A rivalidade entre a guarda do Rei e a guarda de Richelieu era real e famosa. Brigas de rua entre os dois corpos aconteciam, e o próprio Luís XIII gostava de saber que seus homens tinham levado a melhor.

  12. Em parte

    Richelieu, o vilão

    O Richelieu real era temido, tinha espiões e mandou executar inimigos. Mas não era o conspirador de alcova que persegue uma costureira. Para os historiadores, é sobretudo o construtor do Estado francês moderno.

    Ler sobre Richelieu

  13. Em parte

    Rochefort

    Vem de outro livro de Courtilz de Sandras, as Memórias do conde de Rochefort (1687). Não se sabe se o conde existiu ou se é, também ele, um personagem de memórias falsas.

  14. Invenção

    “Um por todos, todos por um”

    Não era o lema da companhia de mosqueteiros. A frase aparece no capítulo IX do romance, e foi a fama do livro que a tornou o lema dos mosqueteiros.

  15. Invenção

    D’Artagnan, marechal da França

    No último livro, d’Artagnan morre na guerra da Holanda no instante em que recebe o bastão de marechal. O d’Artagnan real morreu mesmo nessa guerra, no cerco de Maastricht, em 1673, mas nunca foi marechal.