Romance e história
Verdadeou invenção?
Dumas dizia que a história era um prego onde ele pendurava seus romances. Conferimos o prego: o que nos Três Mosqueteiros aconteceu de verdade, o que foi exagerado e o que saiu inteiro da cabeça do autor.
As fontes de Dumas
Dumas trabalhava com três tipos de material. O primeiro eram as Memórias do senhor d’Artagnan (1700), de Gatien de Courtilz de Sandras: memórias falsas, escritas trinta anos depois da morte do verdadeiro d’Artagnan, que já misturavam fatos e aventuras inventadas. Delas vêm os nomes de Athos, Porthos e Aramis, de Milady e da criada Kitty.
O segundo eram as memórias de nobres do século XVII, como as do duque de La Rochefoucauld, de onde saiu o caso dos agulhetes. O terceiro era o trabalho de Auguste Maquet, historiador e colaborador, que pesquisava, montava a cronologia e escrevia os primeiros rascunhos.
O resultado é um romance em que os acontecimentos públicos (o cerco de La Rochelle, o assassinato de Buckingham, a proibição dos duelos) são quase sempre verdadeiros, e as causas secretas por trás deles quase sempre são invenção.
Quinze pontos conferidos
Verdade: aconteceuEm parte: tem base real, mas foi mudadoInvenção: criação de Dumas
- Em parte
Os quatro mosqueteiros existiram
Os quatro nomes são de homens reais, todos do sudoeste da França e ligados ao senhor de Tréville: Charles de Batz de Castelmore (d’Artagnan), Armand de Sillègue d’Athos, Isaac de Portau e Henri d’Aramitz. Mas personalidades, aventuras e amizade entre eles são invenção. Não há prova de que tenham agido juntos.
- Invenção
D’Artagnan chegou a Paris em 1625
O d’Artagnan real nasceu por volta de 1611. Em 1625 era um menino na Gasconha. Só chegou a Paris nos anos 1630 e entrou nos mosqueteiros por volta de 1644. Dumas adiantou a sua vida em quase vinte anos para colocá-lo no tempo de Richelieu e Buckingham.
- Verdade
O senhor de Tréville
Jean-Armand du Peyrer, conde de Tréville, era um gascão de origem modesta que subiu pela espada até comandar os Mosqueteiros do Rei, a partir de 1634. Protegia os conterrâneos e era um favorito de Luís XIII, como no romance.
- Em parte
Os agulhetes da Rainha
A história vem das memórias de La Rochefoucauld: a condessa de Carlisle teria cortado de Buckingham dois pingentes de diamante, presente da Rainha da França, e o duque teria mandado fazer cópias e fechado os portos. Os historiadores duvidam; La Rochefoucauld escreveu décadas depois. A viagem de d’Artagnan a Londres é invenção.
- Em parte
Buckingham amava a Rainha
Em 1625, Buckingham veio a Paris buscar a noiva de Carlos I e cortejou Ana d’Áustria de forma escandalosa: num jardim em Amiens, a Rainha chegou a gritar por socorro. O duque foi proibido de voltar à França. Se ela correspondia, ninguém sabe.
- Invenção
Milady de Winter
Milady é criação de Dumas, com um ponto de partida real: a condessa de Carlisle, dos agulhetes. O casamento com Athos, a flor-de-lis, o veneno e o julgamento à beira do Lys são todos de Dumas.
- Verdade
Buckingham foi apunhalado por Felton
Em 23 de agosto de 1628, em Portsmouth, o oficial John Felton matou o duque com uma faca. Felton tinha mágoas pessoais e políticas, agiu sozinho e foi enforcado. A parte de Milady seduzindo Felton na prisão é invenção.
- Verdade
O cerco de La Rochelle
De setembro de 1627 a outubro de 1628, o exército real cercou a cidade protestante. Richelieu mandou construir um dique de mais de um quilômetro para impedir que a frota inglesa a abastecesse. A cidade se rendeu depois de catorze meses, com a população dizimada pela fome.
- Invenção
O almoço no bastião Saint-Gervais
Não há nenhum registro da aposta dos quatro nem do almoço sob fogo. A cena é puro Dumas, e uma das mais queridas do livro.
- Verdade
Os duelos eram proibidos
Um édito de 1626 tornou o duelo crime punido com a morte. Em junho de 1627, o conde de Montmorency-Bouteville, que havia duelado mais de vinte vezes, foi decapitado em Paris por desafiar a proibição na Place Royale.
- Verdade
Mosqueteiros contra guardas do Cardeal
A rivalidade entre a guarda do Rei e a guarda de Richelieu era real e famosa. Brigas de rua entre os dois corpos aconteciam, e o próprio Luís XIII gostava de saber que seus homens tinham levado a melhor.
- Em parte
Richelieu, o vilão
O Richelieu real era temido, tinha espiões e mandou executar inimigos. Mas não era o conspirador de alcova que persegue uma costureira. Para os historiadores, é sobretudo o construtor do Estado francês moderno.
- Em parte
Rochefort
Vem de outro livro de Courtilz de Sandras, as Memórias do conde de Rochefort (1687). Não se sabe se o conde existiu ou se é, também ele, um personagem de memórias falsas.
- Invenção
“Um por todos, todos por um”
Não era o lema da companhia de mosqueteiros. A frase aparece no capítulo IX do romance, e foi a fama do livro que a tornou o lema dos mosqueteiros.
- Invenção
D’Artagnan, marechal da França
No último livro, d’Artagnan morre na guerra da Holanda no instante em que recebe o bastão de marechal. O d’Artagnan real morreu mesmo nessa guerra, no cerco de Maastricht, em 1673, mas nunca foi marechal.