Notre-Dame e a Cité
A ilha no meio do Sena
O coração medieval de Paris, com a catedral, o Palácio da Justiça e ruas estreitas. É ali, no Palácio, que os parisienses de 1625 viam os processos de Estado que Dumas transforma em conspirações.
Alexandre Dumas
Um por todos, todos por um.
Um gascão de dezoito anos chega a Paris com quinze escudos, um cavalo amarelo e uma carta que lhe será roubada no caminho. Este é o portal da sua história: o romance anotado, a cidade de 1625 e a verdade por trás dos heróis.
Começar pelo capítulo I
Em 14 de março de 1844, o jornal parisiense Le Siècle publicou o primeiro capítulo de Les Trois Mousquetaires. Os leitores passaram os quatro meses seguintes esperando o jornal do dia para saber o destino de um gascão impetuoso e de três soldados que se escondiam atrás de nomes de guerra.
Dumas não inventou d’Artagnan. Encontrou-o nas Memórias do senhor d’Artagnan, um livro de 1700 em que Gatien de Courtilz de Sandras romanceava a vida de um capitão de mosqueteiros real. Com o historiador Auguste Maquet, que pesquisava e fazia os primeiros rascunhos, Dumas transformou essa matéria-prima num dos romances mais lidos da literatura.
“Tous pour un, un pour tous.”
O lema dos quatro, no capítulo IX
A história continuou em mais dois livros e atravessa quase cinquenta anos: do jovem que chega a Paris em 1625 ao marechal que morre no cerco de Maastricht.
Os quatro heróis de Dumas existiram. Eram fidalgos do sudoeste da França, recrutados para a companhia de mosqueteiros do senhor de Tréville.

Gascão, orgulhoso, sem dinheiro e ofendido por qualquer coisa. Chega a Paris querendo ser mosqueteiro e, na mesma manhã, marca três duelos com os três homens que se tornarão seus melhores amigos.
Na história: Charles de Batz de Castelmore (c. 1611–1673), capitão-tenente dos mosqueteiros de Luís XIV, morto no cerco de Maastricht. Ler mais.

O mais velho e o mais nobre. Bebe para esquecer um segredo: foi casado com uma mulher marcada pelo carrasco. É o centro moral do grupo e quase um pai para d’Artagnan.
Na história: Armand de Sillègue d’Athos d’Autevielle (c. 1615–1643), parente de Tréville, morto em Paris depois de um duelo. Ler o dossiê.

Forte, vaidoso, generoso e guloso. Exibe um boldrié bordado a ouro na frente, mas a parte de trás, escondida pela capa, é de couro simples.
Na história: Isaac de Portau (1617–1712), também mosqueteiro de Tréville, que viveu bem mais que o personagem. Ler mais.

Elegante, discreto e dividido entre a espada e a batina. Tem amores secretos na corte e uma ambição que o levará, no último livro, a geral dos jesuítas.
Na história: Henri d’Aramitz (c. 1620–1674), abade leigo de Aramits, no Béarn, primo de Tréville. Ler mais.
Dumas comprime quatro anos de política real em aventura. Onde os dois relatos se tocam, há uma ✠.
D’Artagnan é humilhado por um desconhecido e perde a carta para Tréville.
Três duelos marcados viram uma batalha, lado a lado, contra os guardas do Cardeal.
Ana d’Áustria dá a Buckingham doze agulhetes de diamante. D’Artagnan vai a Londres buscá-los.
O cardeal entra no Conselho do Rei e logo passa a dirigi-lo.
O duque vem buscar Henriqueta Maria, noiva de Carlos I. Em Amiens, sua corte ousada à rainha Ana vira escândalo. É a semente real dos agulhetes.
O romance salta este ano.
Duelar passa a ser crime punido com a morte. É a lei que os mosqueteiros desafiam a cada capítulo.
Um complô contra Richelieu termina com a decapitação do conde de Chalais em Nantes.
D’Artagnan, agora nos guardas, escapa de dois atiradores pagos por Milady.
Numa estalagem, Athos ouve Richelieu encomendar a Milady a morte de Buckingham.
O duelista mais famoso da França é decapitado por desafiar o édito.
A frota inglesa desembarca para socorrer os protestantes e é repelida. O cerco de La Rochelle começa.
Os quatro apostam que conseguem almoçar uma hora num bastião sob fogo inimigo. Ganham.
Prisioneira na Inglaterra, Milady seduz o oficial puritano Felton e o leva a apunhalar o duque.
Milady envenena Constance Bonacieux. Os quatro a julgam à noite, à beira do rio Lys.
John Felton, um oficial ressentido, apunhala o duque em Portsmouth. Ninguém o mandou: agiu sozinho.
Isolada por um dique de mais de um quilômetro, a cidade capitula depois de catorze meses de fome.
A planta de Matthäus Merian mostra a cidade dez anos antes da chegada de d’Artagnan. Na gravura, o leste fica no alto: o Sena desce do topo para a parte de baixo da imagem.

Passe o cursor sobre a planta para usar a lupa.Arraste a planta para os lados para explorar. Merian, Le plan de la ville, cité, université et fauxbourgs de Paris, 1615 (fac-símile de 1908).
A ilha no meio do Sena
O coração medieval de Paris, com a catedral, o Palácio da Justiça e ruas estreitas. É ali, no Palácio, que os parisienses de 1625 viam os processos de Estado que Dumas transforma em conspirações.
Na ponta oeste da Cité
Inaugurada em 1607, era a ponte mais nova e mais movimentada da cidade: sem casas em cima, cheia de vendedores, charlatães e batedores de carteira. Atravessá-la era passar da Paris do Rei para a margem esquerda dos mosqueteiros.
Margem direita, à beira do Sena
A residência de Luís XIII e de Ana d’Áustria. É no Louvre que o Rei passa em revista os mosqueteiros de Tréville e que a Rainha entrega em segredo a Buckingham os agulhetes que d’Artagnan terá de trazer de volta de Londres.
Margem esquerda, em volta da abadia
Ao sul da abadia ficam os endereços do romance: a rua do Vieux-Colombier, onde Tréville recebe os seus homens; a rua dos Fossoyeurs, onde d’Artagnan aluga um quarto na casa do senhor Bonacieux; e, mais adiante, o convento dos Carmes-Déchaux, onde acontece o primeiro duelo. Ficam logo além da borda direita desta planta.
Margem esquerda, à beira do Sena
Um descampado entre a abadia e o rio, famoso pelos duelos ilegais. Foi perto dali que o Athos real, Armand de Sillègue, recebeu os ferimentos que o mataram em dezembro de 1643.
Philippe de Champaigne pintou Richelieu de frente e de perfil para que um escultor em Roma fizesse seu busto. Dumas também o mostrou só de um lado.
O Richelieu de Dumas é o grande manipulador: comanda Milady e Rochefort, persegue a Rainha e transforma um caso de diamantes numa questão de Estado. No fim, porém, reconhece o valor de d’Artagnan e lhe entrega a patente de tenente.
Principal ministro de 1624 a 1642, Richelieu tirou o poder militar dos protestantes, enfrentou os Habsburgo, fundou a Academia Francesa em 1635 e deu à França uma marinha permanente. Para ele, os duelos eram uma sangria da nobreza.
Anne de Breuil, Lady de Winter, condessa de La Fère. Bonita, inteligente e implacável, é a agente secreta do Cardeal e a maior vilã do romance.
D’Artagnan descobre o seu segredo por acaso: no ombro dela há uma flor-de-lis gravada a ferro, a marca que o carrasco imprimia nos criminosos. Athos reconhece a marca. Anos antes, tinha se casado com aquela mulher.
Ela envenena Constance, manda matar Buckingham e foge. Os quatro a alcançam em Armentières, onde é julgada à noite e entregue ao carrasco de Lille.
Maurice Leloir estudou roupas, armas e interiores do século XVII para ilustrar a edição de luxo de Calmann-Lévy, em 1894. Suas gravuras fixaram a imagem dos mosqueteiros até hoje.








